POR DETERMINAÇÃO JUDICIAL

A PÁGINA


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FOI RETIRADA DO AR!

Que ouça Mallu antes

Podemos e devemos debater sobre a diferença de poder entre um homem mais velho e uma mulher adolescente num mundo patriarcal. Podemos e devemos debater o comportamento predatório que muitos homens mais velhos têm em relação a adolescentes. Podemos e devemos debater quão livres e informadas podem ser as nossas escolhas quando temos 15 anos – idade da Mallu quando começou a namorar Marcelo. Tudo isso é válido e necessário. Mas o que a gente NÃO pode é enfiar o dedo na cara da Mallu, determinando que o relacionamento dela é abusivo, sem nunca sequer ter conversado com ela para saber o mínimo que seja sobre a sua versão da história e a dinâmica do seu relacionamento.
Essa lógica, na qual só existem duas possibilidades (homem abusador e mulher abusada) é binária. Sabe o que também é binário? O machismo, que postula que só existem homem x mulher, natureza x humano, força x fragilidade, superior x inferior. Logo, o que eu tô pra escrever faz um tantão de meses é isso: moça que quer salvar a Mallu sem nunca ter ouvido a Mallu… você está sendo machista.
O machismo coloca a mulher na posição de princesinha indefesa que precisa ser protegida ou salva dos perigos, dado que é incapaz de se proteger ou salvar-se sozinha. Esse tipo de feminismo não tira a mulher de tal posição. A diferença é que quem vai salvá-la e protegê-la não é mais o príncipe, mas sim as feministas, mulheres iluminadas que enxergam a verdade e vão mostrar para ela o quanto o príncipe é feio, bobo, opressor e nojento. Esse feminismo é tão paternalista quanto o machismo, pois menospreza a inteligência e a capacidade de julgamento das mulheres que estão fora dele.
Durmam com esse barulho: a Mallu, a atriz pornô, a Panicat e a stripper não são mocinhas indefesas esperando ser salvas por vocês. Os oprimidos têm, sim, (alguma) agência. E, quando se consideram mulheres, 50% da população, jamais podemos assumir que nenhuma têm poder algum em relação a nenhum homem. Depende da mulher. Depende do homem.
Os oprimidos têm, dependendo da situação, mais ou menos espaço para ir “comendo pelas beiradas”, lidando e jogando com as circunstâncias, negociando e encontrando maneiras de conseguir felicidade no meio da opressão. Senão ninguém vivia. Senão todo mundo simplesmente se matava.
Repete com a tia: as mulheres NÃO são desprovidas de agência mesmo quando….
  • Apanham do marido
  • Moram em um país com lei islâmica e têm que usar burca
  • Sofrem mutilação genital
  • São prostitutas (por escolha ou forçadamente)
  • E por aí vai.
Mesmo na pior das situações, sempre te resta ao menos um último poderzinho: o poder de decidir COMO reagir à opressão que lhe infringem. Essa frase não foi dita por mim, mas por Vikor Frankl, sobrevivente do holocausto. Alguém pode estar com a arma na tua cabeça tentando te forçar a fazer alguma coisa, você ainda tem o poder de escolher morrer com orgulho, dizendo: “nem fodendo, pode me matar”. Não é o maior nem melhor poder de escolha do mundo, mas é um poder. É você quem escolhe se viver é mais importante do que não obedecer.
Se se parte da premissa de que as mulheres são sempre necessariamente vítimas manipuladas sem nenhuma agência ou autonomia; se não há possibilidade de enxergar o abuso/opressão sem ajuda, então não há possibilidade lógica de existência do feminismo (e entendo feminismo, aqui, como movimento de resistência que parte das próprias mulheres). A não ser que você separe as mulheres nessas duas categorias:as iluminadas que DO NADA, SEI LÁ COMO conseguiram enxergar a existência da opressão dos homens nojentos; e as oprimidas, que não enxergam isso sozinhas e por isso precisam ser salvas pelas alienígenas iluminadas.
…Isso é a mesma narrativa do príncipe. É a mesma narrativa do super herói. Isso não é romper com machismo. Isso é só trocar as personagens da mesma história binária, sem nuances.
O meu feminismo reconhece a toda mulher a possibilidade de se virar sozinha e salvar-se à sua maneira. Aliás, até esse conceito aí de salvar tá errado. Não existe salvação do patriarcado. Não existe libertação completa. Não existe fora. Vamos continuar vivendo nele, tendo que lidar com ele. Tentando viver da melhor forma possível no mundo como nos é posto hoje e disputando cabo de guerra por um mundo melhor amanhã. Um exemplo: pode-se dizer que as mulheres do Afeganistão sob o Talibã eram oprimidas por usarem burca, não poderem sair sem companhia de um homem, etc. Mas foi graças ao disfarce da burca que muitas conseguiram filmar os abusos do regime, em vídeos que chegaram ao restante do mundo. Dá um Google aí;)
Para terminar, um detalhe sobre a foto da Mallu com Camelo na praia: ela está SORRINDO. Acho muito sintomático que as moças do Facebook tenham essa visão seletiva. Enxergam a magreza comparada à pança de cerveja do Camelo, enxergam a diferença de idade. Mas escolhem não enxergar o sorriso dela. Um sorriso pode significar muitas coisas, é verdade. Mas uma das interpretações possíveis é que Mallu está feliz e o relacionamento é saudável. Um reles sorriso não é prova de que o relacionamento não é abusivo, claro. Assim como a magreza e a idade também não são prova de que é.
Só me chamem pro feminismo quando este não falar sobre e em nome de Mallu, mas com Mallu. Senão, é sororidade de fachada.
fonte:https://marjorierodrigues.wordpress.com