As primeiras histórias de amor que se conhecem, quando se fala do Ocidente, são as do poeta épicoHomero. Na sua obra Odisséia há o casamento de Ulisses com Penélope,
que enquanto espera seu marido desaparecido voltar das batalhas, acreditando piamente que ele ainda estava vivo, usa o artifício de costurar uma colcha e diz que quando terminá-la, encontrará outro marido, no entanto, o que faz é passar o dia costurando e a noite descosturando para que esse dia nunca chegue, evitando assim ter de se casar novamente. A segunda história é a Ilíada em que, supostamente,Paris teria feito a Guerra de Tróia apenas por causa de Helena. Em ambos os casos, no entanto, a subjetividade do homem, o conceito de indivíduo, ainda não existia, portanto, ainda não havia a lógica do sofrer por amor como se conhece hoje em dia.
“Penélope e os pretendentes, por John William Waterhouse (1912)”
Ainda na Grécia, Platão em O Banquete faz um tratado sobre o amor. Para ele, o amor era algo exclusivamente entre homens, logo pederasta ou homossexual, uma vez que a mulher não possuía direito algum. O amor de Platão significa algo como “ver além”, encaixa no seu ideal de mundo das ideias e virá até nós como o famoso “amor platônico”. Aristóteles também fala do amor numa comparação com a amizade, só que ao contrário de Platão, não vê grandes méritos no amor. O filósofo afirma que a amizade é superior ao amor porque, antes de qualquer coisa, a amizade é moral (dentro de um pensamento de que moral é algo superior, amizade seria uma justa parceria), enquanto que o amor é apenas um extravasamento irracional e até, em alguns casos, cego. Um amor que pode ter servido para Aristóteles chegar a essa conclusão é o de Medéia, personagem da tragédia de Eurípedes.
Entretanto, o objetivo é chegarmos ao amor tal qual o conhecemos hoje. O amor vivido pelo mundo contemporâneo aparece, aproximadamente nos primeiros séculos após o ano mil. Um dos primeiros indícios dele são as canções de amor do período medieval, onde homens escreviam no eu-lírico feminino e cantavam a espera de seus homens que iam para as batalhas. Apesar disso, o amor só vai se marcar e se concretizar precisamente com o aparecimento da subjetividade e do conceito de indivíduo a partir do renascimento. O “Penso, logo existo” de Descartespermite que aquilo que o homem sente, e apenas ele e não um grupo, não uma sociedade, possa ser valorizado como verdadeiro, como experiência do real. Um dos primeiros indícios dessa individualidade está no Quixotede Cervantes em que um homem aparentemente louco se veste de cavaleiro e sai para as batalhas, sempre guardando seu amor no coração.
Talvez não por coincidência, esse momento é o mesmo em que se formam os estados nacionais. Os países se formam, se agrupam, delimitam suas fronteiras, suas línguas, organizam suas primeiras leis, suas formas de pensar e, por fim, começam entre os sujeitos a amar. Ora, essa aproximação faz-nos crer que o conceito de “nação”, dessa forma, se alinha ao conceito de amor, melhor dizendo, o que seria a nação – união entre pessoas que compartilham de um mesmo conceito cultural, social, afetivo, linguístico e de pensamento – adentra também naquilo que seria o amor – sentimento que se tem pelo outro que é parte de nós e complementa nosso ser. Aparece, então, uma relação estreita entre amor e propriedade. O amor que nasce na modernidade está intimamente ligado à igreja, à monarquia e, assim sendo, ao patrimônio. Amar passa a ser sentir vontade de ter POSSE do outro. O problema disso é que, como as mulheres ainda não tinham direitos, amar se torna a possibilidade que o homem tinha de unir-se a uma mulher e assim, juntar bens com os da família dela, apropriar-se de propriedades e posses e criar “uma vida juntos”, o que formaria, então, a nova “família”. É o momento deShakespeare em que um sentimento ainda sem nome – que faz parte do indivíduo – briga com a lógica do amor social – o título familiar, eis o motivo da briga entre famílias que leva à morte de Romeu e Julieta.
Com o iluminismo, tal elemento já estabelecido ganha novos tons. Com a formação da burguesia, a troca de bens e posses em nome do “amor” passa a ser mais instável, o que propicia o aparecimento no romantismo do que se cunhou chamar “amor romântico.” Esse amor romântico cantado pelos poetas, escritores, teatrólogos e músicos seria o sentimento solitário de um amor impossível por uma mulher que não se pode ter. Este “não poder” quase sempre está na chave exposta anteriormente: ou ela é casada ou o poeta não tem posses, logo não pode tê-la. Esse amor romântico reatualiza a idealização platônica, agora na lógica do indivíduo e gera um ser que sofre até em excesso, inclusive causando suicídio de muitos homens da época, como é o caso do Wertherde Goethe.

Quero agora dar um salto desse trajeto para olhar como vemos o amor na contemporaneidade. Hoje cada um ama e se junta a quem quer, todos são livres e tem o direito de amar aquele que escolhe. Isso gera, por um lado, um fato curioso: o amor é um elemento que atrapalha a produção e breca a lógica capitalista do consumo e isso é bom. Por outro, essa liberdade, essa completa possibilidade de se amar quem quer que seja, quando quiser, pelo tempo que preferir, anda gerando uma completa impossibilidade de “amar junto”.
Então, o amor ainda se mantém paternalista e patrimonialista, baseado no conceito de posse, ou seja, eu amo a pessoa que possui uma série de características que me agradam e assim que eu adquiro esse amor – seja via namoro ou casamento – todos esses “bens” passam a ser meus e EXCLUSIVAMENTE meus. Além de meus, eles passam a me compor como sujeito: saltam para minha subjetividade e se incorporam ao meu indivíduo. Trata-se daquilo que falamos lá em cima, do amor próximo do conceito absolutista, aqui reposto na mente de pessoas mimadas que dizem “o que é meu, é meu.”
Em um outro viés, o amor se tornou algo que está ligado diretamente à satisfação. Amar é aquilo que o outro tem que me “completa” (o que indica que eu sou uma metade) e que me satisfaz em todos os sentidos. Ora, aquilo que o OUTRO precisa fazer para me satisfazer, exclui automaticamente a possibilidade de que ele SEJA algo para mim, guardando dentro de si a diferença entre o “eu” e o “outro”. Sem contar que aquilo que gera satisfação é aquilo que deve “dar satisfação”, ou seja, uma vez satisfeito é preciso satisfazer sempre.
Por essas e outras é que creio que o nosso conceito de amor é completamente ultrapassado. É de uma lógica antiga, paternalista, patrimonialista, baseada em ideias como posse, satisfação, controle, vigilância, exclusividade, superioridade, todos os termos que se adequam a uma lógica moderna que, dentre outras coisas, levou à instrumentalização das ideias ou a completa alienação. É preciso derrubar esse amor que vivemos hoje, tal qual foi tentado pelos hippies, para se criar, compor e inventar uma nova forma e um novo jeito de abordagem para a palavra “amor.”
Creio que o amor deve ser visto, como viu Aristóteles em relação à amizade. Amor deve ser uma parceria entre sujeitos, um estável jogo de afeto, em que não haja demandas de um para o outro e, assim sendo, se ausentem as cobranças e as expectativas. O amor deve ser aquilo que o outro tem que eu acho legal, apenas, nada disso de completar, ninguém deve se ver como incompleto. O amor contemporâneo deve nascer na base do 1 e 1, não do 1 + 1, em que forças que se igualam, compartilham vidas e experiências nesse breve tempo que passamos na terra. O amor antigo só leva à destruição e ao sofrimento e tem geração do pior dos diagnósticos: nunca estivemos tão sozinhos e infelizes e nunca precisamos tanto da presença de outros, seja real ou virtual. O amor que chamo de “antigo” é um documento da barbárie, o amor para não ser bárbaro precisa nascer de um novo lugar onde ninguém repousa sobre privilégios ou tem mais força ou direitos que o outro. Amar, como sempre, ainda é uma tarefa das mais complicadas.
Revisado por Maiara Marafon