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FOI RETIRADA DO AR!

“Ajoelhem e peçam perdão a Deus”: Jurandy Silva, pai de Geovane, decapitado, aconselha 11 policiais

jurandy
Na última vez que sonhou com Geovane, sete dias atrás, Jurandy Silva via o rapaz, morto em agosto do ano passado, aos 22 anos, reaparecendo em casa e chamava logo a mãe para mostrar o retorno do filho pródigo. Quando está acordado, Jurandy tenta afastar do pensamento o que ouviu de um delegado: a cabeça do seu filho não foi cortada a facão, ela foi arrancada.
O laudo produzido por peritos legais – acostumados a testemunhar atrocidades com corpos humanos – classifica o que foi feito com o rapaz como uma execução “dantesca”. A decapitação teria sido feita com ele ainda vivo, após a mutilação de mãos e órgãos genitais, e carbonização do corpo. Uma tatuagem na lateral do abdômen também foi raspada. Literalmente, tiraram o couro de Geovane.
Geovane tinha sido visto com vida pela última vez na tarde de 2 de agosto, abordado com violência por três policiais, antes de ser levado para uma viatura. A cena, gravada por uma câmera de segurança, só foi descoberta por causa da obstinação do pai Jurandy e da insistência de parte da imprensa que não aluga microfone por cota publicitária, nem empresta caneta por anúncio. Foi a imagem que desencadeou uma investigação, culminando com a denúncia do Ministério Público do Estado, acusando 11 policiais pelo homicídio por motivo torpe e com requintes de crueldade.
O processo reconstituiu desde a abordagem “sem que estivesse na prática de qualquer delito que justificasse a prisão”, até a tortura e execução, menos de duas horas depois, em um quartel da Rondesp, no Lobato.
“O que eu fiz foi uma força inesperada que Deus me deu para correr atrás do meu filho”, considera Jurandy, um simples instalador de pisos, que peregrinou, praticamente sozinho, por unidades policiais, hospitais e necrotérios, até chegar a alguma pista. “Meu direito como cidadão brasileiro era ter resposta sobre meu filho, se ele foi levado pela polícia, deveria estar em algum lugar, ou morto ou vivo. Se eu não encontrei ele vivo, tinha que encontrar morto”.
Um dos 11 denunciados, o soldado Jesimiel da Silva Resende, morava perto da vítima no bairro da Sta Mônica, e já respondia dois processos por homicídio qualificado, que, no jargão de um segmento da polícia que mata antes e pergunta depois, é auto de resistência. Geovane fora presos duas vezes por roubo em 2011 e, em 2014, respondia a processo por homicídio com mais duas pessoas.
Rasparam do corpo de Geovane a tatuagem com o nome de Jurandy. Ele tem gratidão pelo trabalho da imprensa, sobretudo o repórter Bruno Wendel, do Correio*, que encontrou na Corregedoria de polícia e foi o primeiro a noticiar o caso, com o vídeo da abordagem dos policiais.
“Se eu tivesse uma bola de cristal pra saber que meu filho iria passar aqueles momentos, eu passaria com ele”, sofre o pai. “Não tenho medo de morrer, eu não fiz nada. Eu fui vítima uma vez, vou ser vítima de novo?” Todo o depoimento dele parece ser de uma pessoa resignada, que enterrou o filho, segundo as palavras dele próprio, com “o corpo emendado”. Ele garante não ter rancor sobre os autores do crime dantesco. “Todos são seres humanos, como eu, ou qualquer um. Quem fez, peça perdão a Deus. Ajoelhe e peça perdão a Deus, que Ele vai julgar”.

POLICIAIS DENUNCIADOS
Claudio Bonfim Borges (subtenente)
Gilson Santos Dias e Daniel Pereira de Souza Santos (sargentos)
Soldados:
Jesimiel da Silva Resende
Jailson Gomes Oliveira
Claudio Cezar Souza Nobre
Jocenilton dos Santos Ferreira
Roberto Santos Oliveira
Alan Moraes Galiza dos Santos
Alex Santos Caetano
Fábio Sodré Lima Masavit Cardozo

Fonte : 
Pablo Reis é jornalista baiano, interessado em histórias interessantes da vida dos outros; ganhador de 3 prêmios Banco do Brasil de Jornalismo, Prêmio Barbosa Lima Sobrinho (OAB-Bahia), duas vezes finalista do Prêmio Imprensa Embratel, finalista do Prêmio Caixa de Jornalismo Social, vencedor de três prêmios da Associação Baiana de Imprensa. Acredita que a informação é o melhor instrumento para exercício da cidadania.