
Mudanças impostas pretendem diminuir resistência de hospitais em aceitar vítimas
Sentimento de descrença é a sensação predominante entre os profissionais de saúde após as resoluções lançadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) na última quarta-feira (19).
As mudanças pretendem dar mais agilidade no socorro aos pacientes e pretende ainda diminuir a resistência de hospitais em aceitar vítimas. “As resoluções servem como pontapé inicial para a discussão de problemas graves na saúde”, revela Ivan Paiva, coordenador do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu).
Maria do Socorro Mendonça, médica reguladora do Samu, acredita que “a resolução está 10 anos atrasada”. “O Conselho deveria ter feito isso há tempos, junto com a criação do Samu”, opina. A médica reguladora se mostra bastante desiludida com as mudanças propostas pelo CFM. “Agora eles ganharam uma nova desculpa. Além de rejeitar o paciente, eles rejeitam a maca também, mesmo se a gente tiver oferecendo”, revela Socorro.
Em resposta à errônea utilização das macas do Samu dentro dos hospitais, suprindo a ausência de leitos, o CFM definiu que o médico plantonista será obrigado a liberar a ambulância com todos os seus equipamentos:
“Chegamos a ficar com macas presas por 10 dias, o que atrasava nosso serviço e nos impedia de atender outras urgências”, revela Paiva. O coordenador afirma que a solução foi comprar macas extras. “As macas do Samu são extremamente mais caras, em torno de R$ 2 mil. Porque os hospitais não podem fazer o mesmo, se as comuns custam cerca de R$ 350?”, questiona Paiva.
Vaga-zero
Outra polêmica mudança diz respeito à vaga-zero, que é quando o paciente com risco de morte ou com sofrimento intenso é atendido mesmo depois de preenchido todo o limite de vagas do hospital. Segundo a nova norma, a vaga-zero deve ser uma exceção e passa a ser responsabilidade do médico:
“Eles consideram vaga a capacidade de leitos para internamento. Mas a vaga-zero é a existência de uma equipe com capacidade e recursos de tratar o paciente, pois o Samu só é capaz e acolher e estabilizar”, afirma o coordenador. “Acredito que seja melhor estar amontoado nos hospitais do que em uma ambulância, onde não há pessoal capacitado ou instrumentos necessários para cuidar da vítima”, garante Socorro.
Óbito: constatar, mas não atestar
A resolução também afirma que os profissionais do Samu podem constatar o óbito, mas não atestar, caso não tenha conhecimento da causa mortis do indivíduo. O atestado de óbito só pode ser concedido depois de uma investigação, o que exige tempo e impede que o Samu prossiga atendendo outras vítimas que também precisam de ajuda:
“Muitas vezes éramos utilizados para dar atestado de óbito, reduzindo os custos do serviços das funerárias, o que é errado”, afirma Osvaldo Alves Bastos Neto, vice-coordenador do Samu. Com as mudanças, o profissional deverá comunicar o fato ao médico regulador, que acionará a Polícia Civil ou Militar ou o Serviço de Verificação de Óbito para que tomem as providências legais.
Fonte: VN
